Crítica| Uma Mulher Fantástica (2017)

18:08 6 Comments A+ a-


Uma mulher fantástica conta a história de Marina (Daniela Vega), uma transexual que trabalha como garçonete durante o dia e canta em bares durante a noite. Marina tem um relacionamento a mais de um ano com Orlando (Francisco Reyes), com quem faz planos e, a pouco tempo, começou a dividir o mesmo teto. Orlando, que é um homem mais velho e decidiu largar a sua família tradicional para viver um amor livre de preconceitos e barreiras, sofre um aneurisma e morre, mudando para sempre a vida de Marina.

O que ocorre nas cenas seguintes é impactante: em poucos instantes, Marina passa de companheira de luto à suspeita. É questionada pelas autoridades policiais e pelo médico, perseguida e escorraçada pela família de Orlando, que reivindica para si os bens, o funeral e todos os trâmites decorrente do seu falecimento. Em questão de dias, Marina não tem mais nada, até mesmo a cachorra Diabla que ganhou de presente do companheiro é arrancada sem a menor compaixão. Apesar de tudo isso, ela conta com ajuda da irmã e do seu professor de canto e, diariamente, tenta combater o estigma que lhe acompanha pela sua escolha e condição.

As pessoas são indiferentes ao sofrimento de Marina até mesmo quando a violência sofrida por ela ocorre em plena luz do dia, em meio a cidade. Qualquer semelhança não é mera coincidência, mas não é esse tipo de agressão que mais abala, afinal isso decorre da ignorância humana. O que dói, o que machuca, é a falta de compreensão das pessoas ao lidarem e aceitarem o fato de ela viver lutando para simplesmente tentar ser o que é, e a atriz Daniela Vega transmite uma gama de sentimentos profundos e até, então, desconhecidos ao telespectador, que a certa altura já se sente parte da trama. Uma das cenas mais impactantes foi a que Marina luta para ficar de pé em meio a uma tempestade de vento, uma triste metáfora da vida real que reflete bem a personalidade da personagem: uma mulher forte, que vive de cabeça erguida e que, embora tenha os seus momentos de fraqueza, nunca se deixa abater.


Sebastián Lelio, diretor dos filmes independentes La Sagrada Família (2005) e Navidad (2009), já é conhecido por confrontar os valores da família tradicional. O diretor também dirigiu o longa-metragem Glória, protagonizado pela atriz Paulina Garcia (Narcos), lançado no Brasil em 2014. O autor convidou a atriz  trans Daniela Vega, que também é cantora lírica na vida real, para participar do projeto concebido junto com o roteirista Gonzalo Maza..

Em entrevista ao jornal El Pais, o diretor disse que acreditava que os telespectadores não estavam preparados para assistir a um filme protagonizado por uma transsexual e que não tinha o objetivo de retratar o drama da população trans, mas é impossível não enxergar a realidade dessas pessoas e não se questionar quantas "Marinas" são vítimas do preconceito diariamente.

O drama chileno ganhou o Urso de Prata de melhor roteiro e o prêmio Teddy, dedicado às produções com temática LGBT, no Festival de Berlim de 2017 e está sendo cotado para as indicações (bastante merecido por sinal) ao Oscar de melhor atriz e melhor filme estrangeiro. O filme teve a sua estreia nacional no dia 07 de setembro.


Pisciana, 2.6, humor de 60, dramática, apaixonada por livros e animais.

Instagram: @deebritoo

6 Comentários
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14 de setembro de 2017 13:00 delete

O fato de sermos desumanos nestas questões afeta muita gente. Preconceito é algo enorme e acho que este filme faz isto de acreditar que só porque a personagem é "diferente" no que a sociedade acredita ela é suspeita. Não conhecia sobre o filme.

Greice

Blogando Livros

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14 de setembro de 2017 23:15 delete

Oi Diana!

Eu ainda não tinha lido nada sobre esse filme, mas fiquei bem interessada nele. Sempre estou tentando procurar longas diferentes e de outras nacionalidades e esses parece ser muito bom! Além do tema que ele vai retratar, que é super importante!
Ainda não assisti, mas torço para que consiga pelo menos uma vaga na premiação de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar. Torcendo aqui!
Bjss

http://umolhardeestrangeiro.blogspot.com.br/

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16 de setembro de 2017 12:02 delete

Oi, Diana!
Que intenso! Não sabia da existência desse filme e fiquei com vontade de assistir.
Certeza que vou me emocionar com essa história. Nunca tinha visto um filme sobre uma transsexual. Obrigada pela dica!
Beijão!
http://www.lagarota.com.br/
http://www.asmeninasqueleemlivros.com/

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Manuh
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16 de setembro de 2017 15:09 delete

Oi, tudo bem?
Não conhecia o filme mas achei bem interessante, quero muito poder assisti-lo pois nunca vi um filme desse tipo e acho que será uma ótima oportunidade! Gostei muito da crítica, espero vê-lo em breve, beijos.

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Leandro Brito
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16 de setembro de 2017 15:39 delete

Oi. Tudo bem?
Nossa, ainda não tinha ouvido falar desse filme, mas fiquei muito interessada sobretudo devido ao tema tratado. Deu para ver na crítica que é um produção incrível, responsável e muito interessante. Fiquei muito animado para ver, principalmente quando li sobre a metáfora do vento, essa cena deve ser incrível. Com certeza assim que tiver a oportunidade eu vou ver. Uma ótima dica. Obrigado.
Abraço!

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Diane
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19 de setembro de 2017 14:37 delete

Olá...
Ainda não conhecia a obra em questão, mas, adorei seus comentários sobre a obra! Achei a premissa muito legal e pelos seus comentários a obra possui vários elementos que me atraem em uma leitura... Espero poder ler em breve <3
Valeu pela dica!
Bjo

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