Resenha| Guerra de gueixas, de Nagai Kafu

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| Editora Estação Liberdade | Classificação: 4/5 | Ofertas |
Ambientada em Shinbashi, Tóquio, tido como o bairro da prostituição, a história tem como personagem central Komayo, uma gueixa que por muitos anos ficou afastada da vida de libertinagem ao se casar. Mas, tendo se tornado viúva, ainda relativamente jovem, teve de voltar ao velho ofício em Shinbashi. Nesse recomeço como gueixa, Komayo passa a ter de disputar com algumas rivais a condição de ser vista como a melhor dançarina da área. Ao mesmo tempo, vê-se envolvida numa teia de relações amorosas, envolvendo um antigo cliente, um velho rico e um jovem ator que encarna papéis femininos.

A forma como o autor desenvolve uma série de personagens secundários, entre escritores, atores, criadas, cafetinas e outros tipos, além de descrever com muita propriedade a engrenagem de costumes e mecanismos das relações entre os homens e as gueixas, pintam um painel fascinante da Tóquio boêmia do início do século XX, reconstituindo com grande vivacidade a engrenagem de costumes e mecanismos das relações sociais de um tempo. Favores, traições e vinganças acabam por compor a descrição de uma época e um lugar, vista como um dos ideais estéticos do autor.

Publicado originalmente entre 1916 e 1917, Guerra de gueixas foi uma obra bastante ousada para a época desde sua primeira edição em livro, ainda em 1917, até os anos 1960, só circulou a edição censurada, em que as passagens tidas como eróticas tiveram de ser removidas. Nada que hoje causasse maior furor, mas as pequenas historietas que compõem a trama central, notadamente os relacionamentos entre as gueixas e seus clientes, carregam de fato muito de uma promiscuidade na sociedade japonesa comum, mas sobre a qual não se falava ou se escrevia.

A trama começa com o reencontro de Yoshioka e Komayo no Teatro Imperial, a última vez que eles tinham se encontrado foi há sete anos, antes de Yoshioka ir para o exterior. Komayo foi a primeira gueixa de Yoshioka e eles tinham uma intimidade que havia sido construída aos poucos, era um relacionamento puro e sem maldade. De início você pensa que o livro narra apenas mais uma história de amor, mas, com o avançar das páginas, começamos a perceber que não é bem assim.

Apesar de Yoshioka ser rico e realmente estar apaixonado por ela, Komayo não sente o mesmo e, quando ele se oferece para pagar a sua dívida e tê-la como amante, a gueixa desconversa por um tempo e depois recusa a proposta. Nesse meio tempo, ela conhece Segawa, um ator bonito e jovem, que conquista rapidamente o coração dela, e logo eles se tornam amantes. E é a partir desse romance que a vida de Komayo vira de cabeça pra baixo.

Nagai Kafu conta a trama com ritmo avançado, clareza de expressão, narrativa direta. Ele economizou nas metáforas e tradicionais insinuações orientais. Ao invés de idealizar a personagem de Komayo, ele tenta torná-la um ser humano comum, fazendo com que o leitor se identifique com todos os anseios da personagem. A história é cheia de reviravoltas, o que prende a nossa atenção e faz com que torçamos para Komayo até o final do livro. Uma coisa que nos ajuda a entender mais sobre a cultura japonesa são as notas de rodapé dessa edição, esclarecendo detalhes sobre tal e também nos dá indicações dos trechos que teriam sido censurados no livro quando publicado no jornal.

Guerra de gueixas, considerado um clássico da literatura japonesa moderna, é uma obra de leitura agradável, rápida e rica de passagens memoráveis que com certeza vale a pena à leitura.

Foto: O livro sua majestade

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1 Comentários
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3 de agosto de 2017 15:18 delete

Gostei da resenha, sempre muito bem escritas as resenhas do blog, porém este gênero de leitura não é dos meus favoritos, foi bom conhece-lo através da resenha já.

Um abraço a todos do blog, vocês três arrebentam sempre.

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