[Resenha] Fogo Morto - José Lins do Rego

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“Fogo Morto” é o décimo romance do autor paraibano José Lins do Rego. Sendo um romance regionalista, esta obra trata do ciclo da cana-de-açúcar e nos apresenta os processos de mudanças sociais encontrados no Nordeste brasileiro. A história acontece entre o segundo reinado e o início do século XX. O romance regionalista é dividido em 3 partes, e a cada parte o leitor pode conhecer um determinado personagem. São eles: o Mestre José Amaro, o Coronel Lula de Holanda Chacon e o Capitão Vitorino.


A primeira parte fala sobre a vida do mestre José Amaro. Um homem machista, amargurado, trabalhador, orgulhoso, patriarcal, que não tem língua-presa e nem tem medo de ninguém.

"- Sou da minha casa, da minha família, trabalho para quem quiser, não sou cabra de bagaceira de ninguém.”

Ele é um famoso seleiro do Pilar e mora no Engenho Santa Fé que tem como dono o Coronel Lula de Holanda Chacon. Por ser uma pessoa temperamental e não ter papas-na-língua tivera uma desavença com o dono do engenho por causa do negro Floripes. Só havia uma pessoa que poderia salvá-lo de ser posto pra fora do engenho: o capitão Antônio Silvino, cangaceiro temido por todos e uma espécie de Robin Hood, que tirava dos ricos para dar aos pobres. Tinha uma mulher e uma filha chamada Marta. Marta tinha 30 anos, era solteirona e estava desenvolvendo problemas mentais. Uma das queixas do velho José Amaro era que sua mulher, a Dona Sinhá, nunca lhe dera um filho homem e ele sentia-se frustrado por conta disso. O velho José Amaro sempre era grosseiro com sua mulher e ficava muito incomodado com os choros constantes da filha. Para fugir dessas frustrações, ele começou a sair para caminhar à noite e isso provocou comentários maldosos dos moradores do Pilar. Essas caminhadas noturnas e as crenças populares trouxeram-lhe o título de lobisomem.

"Era um homem perdido, sem filha, sem mulher, só no mundo como se fosse um condenado. Lobisomem. Homem do demônio."

A segunda parte fala sobre a vida do Coronel Lula de Holanda Chacon que casou com D. Amélia, filha do Capitão Tomás Cabral de Melo, e por conta do casamento e morte do sogro adquiriu o Engenho Santa Fé, que administrou pessimamente e após alguns anos estava em declínio. O coronel Lula é um homem impiedoso, arrogante, orgulhoso, epilético e desalmado, principalmente em relação aos negros de seu engenho, e era visto por muitos como um monstro. O coronel privou sua filha Neném de namorar um homem humilde. A filha condenada a viver só fecha-se para si mesma, e a única demonstração de afeto é por suas roseiras. Como se não bastasse, ainda há a irmã de D. Amélia, cunhada do Coronel Lula, que é melancólica e louca. O coronel, vendo a decadência do seu engenho e sua família passando por problemas econômicos, resolve entregar-se às práticas religiosas com o negro Floripes. D. Amélia vendo o desequilíbrio psíquico do marido percebe que só há ela para manter aquela família.

“Os galos começaram a cantar, o chocalho de um boi no curral batia como toque de sino. O negro saiu e D. Amélia ficou a olhar a noite... Agora ouvia uma cantoria fanhosa, um gemer que abafava o canto dos galos. D. Amélia fechou a porta da cozinha. Dentro de sua casa uma coisa pior que a morte. Não havia vozes que amansassem as dores que andavam no coração de seu povo. Viu a réstia que vinha do quarto dos santos, da luz mortiça da lâmpada de azeite. Caiu nos pés de Deus, com o corpo mais doído que o de Lula, com a alma mais pesada que a de Neném. Acabara-se o Santa Fé.”

A terceira parte concentra-se sobre as aventuras do Capitão Vitorino que para muitos é chamado de louco e\ou de “papa-rabo”. Ele é um personagem corajoso que não teme nada nem ninguém.

"Todos se espantavam com a coragem e o jeitão atrevido do velho Vitorino. Era homem que ninguém dava nada por ele e não tinha medo de coisa alguma."

O capitão Vitorino é casado com Sinhá Adriana e pai de Luís, que foi para o Rio de Janeiro em busca de um futuro melhor. Nas duas primeiras partes do romance, o Capitão é uma figura ridícula que causa uma reação de humor nos leitores. Na última parte, mostra-se ser um verdadeiro D. Quixote do Nordeste que defende seus ideais éticos como, por exemplo, justiça e igualdade. O capitão acredita que através do voto ele pode resolver todas as injustiças cometidas pelos latifundiários em relação aos pobres e negros que vivem nos engenhos por onde ele cavalga com sua égua.

"- A vila do Pilar teria calçamento, cemitério novo, jardim… Todos pagariam impostos… Sou o prefeito Vitorino que estou aqui para cumprir a lei."

A linguagem de Fogo Morto é baseada no modo de falar das pessoas que viviam naquela época e naquele lugar. Uma linguagem bastante regional. Também é uma forma dos leitores observarem a diferença linguística que há entre pessoas que vivem nas cidades e pessoas de áreas mais rurais. O livro representa as 3 camadas da sociedade. O mestre José amaro, uma pessoa livre e que não aceita ser explorado, mas ele é; O coronel Lula que perde seu poder econômico, mas não perde o orgulho de ser um senhor feudal e o Capitão Vitorino que aceita todas as lutas em defesa aos mais fracos. Todo o romance se passa num cenário de doenças, miséria, politicagem, poder policial que defende os senhores de engenho e para os menos favorecidos resta apenas o cangaço como fonte de esperança de que um dia as coisas melhorem.
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21 de novembro de 2015 14:17 delete

Me ajudou muito a fazer um trabalho, muito obrigada.

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