[Resenha] A Máquina de Contar Histórias - Maurício Gomyde

11:22 5 Comments A+ a-


    
Por Maria Gabriela Pedrosa

   “O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.”

Fernando Pessoa

Comecei a leitura de A máquina de contar histórias totalmente no escuro, sem nenhuma inferência anterior à escrita ou às referências de Maurício Gomyde. De nada sabia sobre o autor ou a sua maneira de escrever. O livro, dividido em três partes, narra a história de Vinícius Becker, um escritor fleumático, que prioriza o sucesso e a frieza da técnica ao invés dos sentimentos e da emoção da verdadeira escrita. A primeira parte do livro narra à tragédia vivida pelo herói de Maurício: em meio ao lançamento do seu décimo romance, Vinícius recebe a notícia que por muito tempo ansiava não receber: a morte da esposa Viviana. Atormentado pela dor e nocauteado pela angústia da perda do seu grande amor, Vinícius larga mão, pela primeira vez em quatro anos e meio, dos seus compromissos profissionais e vai ao enterro de sua esposa. Ao chegar ao enterro, Vinícius se dá conta de uma realidade aterrorizante: além da perda da mulher, Vinícius conseguiu angariar a raiva e a indiferença das suas filhas, Vida e Valentina, esta, a mais velha, nutrindo um ódio descomunal ao pai e atribuindo a ele a culpa da morte da mãe.

E.B. White, autor de Stuart Little e Charlotte’s Webb não escutava música enquanto escrevia, o autor condenava este tipo de atividade concomitante com a escrita. Como disse anteriormente, não sabia nada do autor, até que fui pesquisar sobre o autor e descobri que além de escritor também é músico. E tudo fez sentido: Gomyde cria sua narrativa entrelaçando a música e a literatura o tempo todo, como se a cada capítulo uma música o tivesse embalado e ele tivesse a necessidade de compartilhar a inspiração
 musical com o leitor. As referências de Gomyde não param na música, pode se encontrar referências a escritores, como Shakespeare e J.D. Salinger, e o pintor Pablo Picasso. Além dessas referências clássicas, Maurício cita nomes de filmes e série (no caso, The Big Bang Theory) ligados à atualidade. A máquina de contar histórias mostra que um bom livro é feito uma concha de retalhos: costurada a partir de vários tecidos.

(foto de Maurício Gomyde) 

 Em recente entrevista à revista adolescente Todateen, Gomyde fala da carga emocional impelida nos seus livros. Essa carga emocional é vista com eficiência na segunda parte do livro que mostra a tentativa, emocionante, de reconquista de Vinicius com as filhas, especialmente Valentina. A entrevista se liga muito a segunda parte do livro que é uma aprendizagem do que é o processo de escrever partilhado entre o pai, que prefere a frieza da técnica (por isso optei por iniciar esta resenha com o poema Autopsicografia de Fernando Pessoa, que traduz perfeitamente o que é a escrita de Vinícius) e que se coloca no lugar de Deus em seus livros e brinca com seus personagens, como se esses fossem títeres. Em contrapartida a filha de dezesseis anos que escreve de forma visceral e crua, abomina a técnica gélida impelida pelo pai nos seus livros. Para mim, o livro todo vale a pena por causa da segunda parte. A primeira é parte do livro é boa, nada de extraordinário, mas a segunda tem pontos de tensão e reviravolta que pegam o leitor desavisado e o fazem sentir a emoção do personagem como se fossem as suas próprias emoções. A terceira parte é o desfecho, um desfecho que é esperado, porém mostra que Maurício, mesmo fincado na obviedade, não deixou que o leitor ficasse desapontado ao terminar as mais de cento e noventa páginas do livro.

Na mesma entrevista, a revista aponta a comparação que muitas pessoas fazem entre Maurício e o escritor americano Nicholas Sparks. Só li um livro de Nicholas Sparks em toda a minha vida que foi o Querido John e a partir da página vinte eu quis dar um tiro na minha cabeça, de tão chato que era o livro (eu vinha do filme Diário de uma paixão e pensei em dar uma chance à literatura de Nicholas). Entendo que algumas pessoas gostem de Nicholas Sparks e compreendo. Só não é o meu tipo de leitura e discordo das pessoas que comparam Maurício e Nicholas. A escrita de Maurício é objetiva e dinâmica, às vezes até um pouco brutal com o leitor, sem rodeios nem meio termo, a emoção está ali presente. Não é um romance romântico tão óbvio, e muito menos de baixa qualidade. Merece sim ser lido e apreciado.

Os personagens de Gomyde são humanos, enquanto virava as páginas eu podia sentir as veias dos personagens pulsarem, e ouvir os ritmos dos batimentos cardíacos dos corações de Vinícius e Valentina a cada nova briga ou a cada diálogo sobre a literatura. É um romance romântico metalinguístico: o autor que escreve falando da própria arte de escrever. Aí reside a originalidade de Maurício ao escrever A máquina de contar histórias, em terceira pessoa, e proporcionar ao leitor a leitura das aventuras de Vinícius ao escrever seu livro Best seller, e da filha Valentina escrevendo seu primeiro romance: A saudade que o tempo é incapaz de apagar. O livro tem várias lições importantes e reflexões imprimidas nas suas páginas, mas um parágrafo que para mim amarra a ideia do livro é a seguinte:

“A primeira letra... o ponto final... No meio, os caracteres e espaços em branco que, por mágica, amarram as duas pontas. A escolha das palavras, a pontuação e a sequência das ideias em casa página. Decisões. Amor recontado entre as aberturas e fechamentos de capítulos, por quem cedeu à tentação de se entregar. Infinitas possibilidades de entendimento, inúmeras histórias em uma só. Aquele foi o caminho trilhado, mas o que viria a seguir? Pouco importava, estradas sempre mudam. Os três só tinham uma certeza: aquela havia sido a jornada mais perfeita que jamais poderiam ter vivido...”  (pág.9)


Jornalista, taurina, viciada em livros, filmes, seriado e em conhecer novos lugares. Adora estudar inglês e acha que essa deveria ter sido sua língua mãe.

5 Comentários
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3 de setembro de 2014 13:10 delete

sinto falta de ler os livros do Maurício, são tão bons, tão reflexivos, tão intensos! sei lá, parece que eu não leio, eu vivo!
http://felicidadeemlivros.blogspot.com.br/

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3 de setembro de 2014 15:41 delete

Oi,
Então estou com esse livro lá em casa para ler e preciso ler ele logo...rsrs. Sobre a comparação entre o Mauricio e o Nicholas a impressa sempre tende a querer comparar obras sendo que elas sempre serão unicas, afinal cada um tem seu jeito de escrever ne? Enfim espero conseguir ler e logo e gostar tanto quanto você gostou do livro.
Beijos
Raquel Machado
Leitura Kriativa
http://leiturakriativa.blogspot.com.br/

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Anônimo
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4 de setembro de 2014 10:52 delete

Oi, gostei do seu Post, Parabéns!
Deixe um comentário no meu também: http://viciodelerlivros.blogspot.com.br

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5 de setembro de 2014 15:47 delete

Oi Ray,
Passando hoje para te convidar a conferir o post super especial que fiz sobre o lançamento do meu livro Vingança Mortal lá no Leitura. Se puder dar uma olhadinha e comentar, agradeço muito.
http://leiturakriativa.blogspot.com.br/2014/09/lancamento-do-meu-livro-vinganca-mortal.html
Beijos

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5 de setembro de 2014 18:38 delete

Eu jamais comentei qualquer resenha minha, e foram tantas...
Aliás, comentei uma resenha negativa, pois a abordagem era superinteressante e válida.
Mas sou obrigado a parabenizá-la pela análise, Maria Gabriela. Independentemente do conteúdo ser tocante para mim, no que diz respeito a eu ser o autor e ter dedicado tanto tempo e paixão ao texto, suas palavras me fizeram refletir uma série de coisas bacanas a respeito do meu trabalho. Obrigado por elas.

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