[Resenha] O Amante de Lady Chatterley - D. H. Lawrence

11:00 11 Comments A+ a-

Esta foi uma das resenhas mais difíceis que tive que fazer. A obra é maravilhosa e qualquer coisa que fale aqui não irão representar um terço da beleza poética que encontrarão na mesma.
Há anos atrás comecei a ler O Amante de Lady Chatterley, mas infelizmente não consegui concluir a leitura, e até hoje estou arrependida. Felizmente, minha vida durou até onte, quando tive o prazer de virar a última página desse incrível livro, que me tirou o folego em vários momentos. As primeiras páginas desta edição do livro (Pinguin-Companhia), traz uma incrível introdução de Doris Lessing, onde o leitor começa o envolvimento com a obra. Nessa introdução Doris fala sobre características importantes na obra e sua interpretação da mesma. Para mim, essa introdução significou uma 'abertura' da minha mente para a inimaginável obra a qual iria ler. Narrado em terceira pessoa, O Amante de Lady Chatterley de D. H. Lawrence, narra a estória de Constance Chatterley, que um mês após seu casamento vê seu marido partir para a guerra. Clifford é um bom marido, e poderia ser ainda melhor, caso não tivesse voltado da guerra paraplégico, arrastando consigo Connie (Constance), para a casa da sua família, Wragby.
"Em seguida estremeceu quando sentiu a mão dele que avançava, com uma estranha falta de jeito, por suas roupas. Ainda assim, a mão sabia como despi-la onde desejava."
Ao chegar em Wragby, em 1920, Connie se vê refém de uma rotina cansativa e monótona, na qual ela basicamente é uma empregada/enfermeira para Clifford. Enquanto definha a espera de uma liberdade apenas sonhada, Connie recebe uma estranha e iluminada proposta de seu marido: Arrumar um amante do qual pudesse ter um filho. No início ela reluta em aceitar, porém ao se ver tão
 sem rumo e dependente de seu marido, passa a ver a proposta com outros olhos. Oliver Mellors trabalha para o Sir Clifford há 8 meses como seu guarda-caça. Após um casamento fracassado e voltar da guerra, Oliver só deseja viver enterrado em seu trabalho e longe de todos em sua cabana na floresta da propriedade de seu patrão. Porém tudo muda quando ele conhece Lady Chatterley e é escolhido para ser seu amante.
"E pelo mesmo motivo, a maioria dos romances, especialmente os mais populares, também pode ser humilhante. Hoje, o público só responde quando os escritores apelam para seus vícios."
Algo que o leitor se depara nesta incrível obra, constantemente, é com os dialogos densos e carregados de crítica a sociedade londrina da época. Ornamentado na década de 20, o livro traz o papel das mulheres, do casamento e dos homens de forma dura e crua, deixando o leitor um tanto quanto curioso sobre como a apenas alguns anos atrás as mulheres eram tratadas apenas como vasos usados para procriar. Entretanto, o livro fala de amor, e claro, de sexo. Connie sente que seu corpo já não é o mesmo pela falta de atividade sexual, mas ao mesmo tempo que não sente atração física por seu marido, ambos se encontram extremamente confortáveis em uma relação de 'amor-sem-toque'. Um dos pontos mais questionados na obra é: existe amor sem sexo? Até onde ambos estão ligados? Se você ama, não deseja ter relações sexuais? Não seria essa relação uma forma de demonstrar que se ama? Pois é, o leitor se confronta com vários tabus no livro.
"A Sociedade civilizada é louca. O dinheiro e o que se entende por amor são suas grandes manias; o dinheiro de longe, em primeiro lugar."
Precisa-se ressaltar, que ao ser lançado, esse livro foi proibido de ser distribuído por 'vulgarizar' o sexo. Para o que vemos hoje nos livros eróticos, D. H. Lawrence poderia ser canonizado. E apesar de não ser explicitamente vulgar, ele tem uma forma erótica limpa e excitante que agrada o leitor em diversos pontos. A relação de Connie com seu amante é turbulenta e complicada. No início, o leitor acha que Connie só se interessa por Oliver, que é constantemente citado como Guarda-Caça, apenas pelo prazer físico que seu corpo pode proporcionar ao dela. Em das cenas mais bizarramente adoráveis, Connie quase presta um culto em homenagem ao falo - é assim que Lawrence refere-se ao pênis - de seu amante. Por tanto, as mudanças de opinião com relação ao seu amor por Oliver vai variando de acordo com seus orgasmos. É algo interessante de se ver como aguardamos a próxima opinião que ela expressará para que possa-se concordar, ou não.

 Em vários momentos do livro vi-me odiando Connie, exatamente pelos motivos citados acima. Ela tem em mãos dois homens decentes, que a amam e que a querem agradar, mas não consegue decidir-se onde quer ficar. Enquanto Clifford é um nobre que almeja a fama dos autores, sendo ele mesmo um autor, Olliver é um homem simples, que se difere de Clifford não por seu dinheiro, mas pelo carisma que exerce sobre o leitor. Ao longo da leitura me perguntei diversas vezes como poderia ser o final da obra, pois esperava algo surpreendente, mas existia situações que não queria ver acontecendo no fina. E é incrível dizer isso, mas o autor concluí esse livro de maneira sutil, adorável e nada, nada esperada.
"-Só que na minha experiência a massa das mulheres é assim: a maioria delas quer um homem, não o sexo, mas resolve tolerar o sexo como parte do acordo."
Minha busca por mais clássicos não poderia ter começado de maneira melhor. D. H. Lawrence tem uma qualidade de escrita tão indescritível que sinto-me pequena em apenas tentar fazer um breve comentário sobre qualquer obra dele. Com diálogos para lá de inteligentes e personagens tão reais que dão medo, O Amante de Lady Chatterley merece ser lido, ao menos, uma vez na vida por todo mundo.

Jornalista, taurina, viciada em livros, filmes, seriado e em conhecer novos lugares. Adora estudar inglês e acha que essa deveria ter sido sua língua mãe.

11 Comentários
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27 de março de 2014 13:25 delete Este comentário foi removido pelo autor.
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27 de março de 2014 13:26 delete

Nossa, parece ser bom, olhei a capa e tive certeza de que não gostaria, mais daí li a resenha e a história me agradou bastante.

Tem promo de livros lá no blog
http://booksandflowers.blogspot.com.br/

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Ivana Montiel
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27 de março de 2014 17:04 delete

Oii Rah tudo bem ?
Não conhecia esse livro não, mas achei legal as perguntas que ele faz, as reflexões que ele propõem pra gente pensar. Parece super interessante, e a sua resenha está maravilhosa, não tem como não deixar o livro super interessante...

Beijos, Ivana

http://omundinhoderebecca.blogspot.com.br

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27 de março de 2014 19:24 delete

Eu não sei quando tive vontade de ler esse livro, mas alguém me indicou ou vi em algum livro, não sei, o fato é que eu tenho esse livro aqui, só ainda não li. A ideia dele é tanto estranha, um marido deixando a mulher ter um amante... vou ler, mas não a edição ruinzinha que tenho aqui.

Bjs, @dnisin
www.seja-cult.com

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Alessandra
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27 de março de 2014 19:39 delete

Não conhecia o livro até agora, mas tua resenha me empolgou bastante.
Talvez antes dela eu pudesse fazer cara feia para a obra, mas da forma que tu abordou as características dele ficou impossível não querer lê-lo também.

Bjs
http://www.confraria-cultural.com/

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Carla Moura
AUTHOR
27 de março de 2014 19:59 delete

Raaaaaaaaay, que resenha bafonica foi essa? Com certeza essa foi sua melhor resenha. Vi que estava lendo e tava esperando sua resenha. Agora vou correr na livraria pra comprar ler.

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28 de março de 2014 07:22 delete

Oie,
nossa sério que a história é assim?
Não sabia, mas vc me desanimou para ler o livro. rsrsr

bjos

http://blog.vanessasueroz.com.br

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28 de março de 2014 12:17 delete

Oi Ray.

Você citou no início do post, que havia começado a ler o mesmo anos atrás. Isso, presumo eu, quer dizer que ele tenha mais de cinco anos? Fico contente em saber que já existiam livros bons do gênero antes desta eclosão de "Tons", assim como os Harlequins e Sabrinas. Fiquei interessado neste.

Att,
V. I. Neves

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D e s s a
AUTHOR
28 de março de 2014 15:49 delete

Não sou de ler muitos clássicos, mas queria mudar isso. Adorei a trama deste, espero ter oportunidade de ler.
bjs
apenas-um-vicio.blogspot.com.br

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Anna Patih
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6 de novembro de 2015 22:45 delete

Conheci a história do livro em uma aula e quis saber do que se tratava... pelo que você descreve, a história deve ser bastante curiosa e diferente... deve ter sido bastante criticada na época.

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8 de dezembro de 2015 16:06 delete

Que eu me lembre, é a primeira vez em que eu vejo alguém elogiando as qualidades literárias desse livro. Nos anos 1960, ele era muito vendido pelo reembolso postal, através de anúncios nas revistas em quadrinhos (era uma leitura "proibida", ainda). Para mim, ele é apenas uma leitura curiosa, como Fanny Hill e Mme. Bovary: livros os quais, se propondo a abordar a sexualidade feminina, foram escritos por homens. Note-se que esse livro foi também acusado de criar mais um complexo feminino. O "complexo de Lady Chatterley" acometia mulheres ainda virgens que, depois de ler o livro, acreditavam que ter orgasmos era ver a lua despencar do céu, e sentir ondas invisíveis varrendo a superfície da Terra. Daí, na hora do rala e rola, o sujeito se esforçava ao máximo e no final ela dizia para ele, decepcionada: "Ah, é só isso"?

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